SUA VIDA COMO AGENTE DO BOPE NO DIA 28 DE OUTUBRO DE 2025
Nível um, a convocação.
Você tem 31 anos, sargento do BOP, 8
anos de corporação, quatro dentro do
batalhão de operações especiais. A
caveira no boné não é enfeite, é
contrato. Você sabe o que assinou quando
entrou? Na madrugada de 27 para 28 de
outubro de 2025, seu celular toca às
2:40 da manhã. Número do batalhão. Você
atende antes do segundo toque porque
aprendeu que ligação de madrugada do
batalhão não espera segundo toque. Voz
do plantão. Concentração geral às 4
horas. Equipamento completo. Você não
pergunta por não é assim que funciona.
Você veste o uniforme no escuro para não
acordar sua esposa. Ela acorda mesmo
assim. Fica de lado na cama, olhando
para você se equipar sem falar nada. Já
fez isso antes? Sabe quando perguntar e
sabe quando ficar em silêncio. Você dá
um beijo na testa dela, sai. Na garagem,
você olha pro carro por 2 segundos antes
de entrar. É um hábito. Checa embaixo,
checa em volta. 8 anos de BOPE ensinam
que paranoia e cautela às vezes são a
mesma coisa. Você entra no carro e
dirige para o batalhão no escuro da
madrugada carioca. Nível dois, o
briefing. 4:15 da manhã, pátio do BOP.
Você nunca viu aquele pátio tão cheio.
Não é só o BOPE. Tem polícia civil,
polícia militar convencional, batalhão
de choque. 2500 agentes no total. Para
uma operação desse tamanho, você sabe
que o alvo não é pequeno. O comandante
sobe no palanque improvisado. Fala
rápido. Operação contenção. Objetivo:
conter o avanço do comando vermelho nos
complexos do alemão e da Penha. 100
mandados de prisão, 26 comunidades. Foco
nos líderes da facção. Alvo principal,
Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos
chefes do CV no Rio. Você escuta e
processa 100 mandados, 26 comunidades,
dois complexos interligados que somam
mais de 100.000 moradores, terreno que
você conhece, becorreu,
mata fechada entre o alemão e a Penha
que o CV usa como rota de fuga há anos.
O Bop fica com a parte da mata. O topo
do morro é o termo que o comandante usa.
Você e sua equipe entram pelo alto e
fecham a saída norte da mata enquanto a
PM convencional empurra pelo baixo. Você
pega o mapa, estuda por 15 minutos,
memoriza os pontos de entrada, as rotas
de extração, os pontos de apoio médico.
Às 5:30 da manhã, os ônibus partem.
Nível três, a entrada. 5:59 da manhã.
Você desce do blindado na base de acesso
ao complexo do alemão. Ainda está
escuro, mas o céu começa a clarear no
leste. Você ouve tiro antes de ouvir
qualquer comando. O CV já sabe que a
operação chegou. Comunicação explode no
rádio. Múltiplos pontos de contatos
simultâneos. A PM convencional já está
engajada em pelo menos cinco frentes
diferentes no nível baixo. Você recebe
ordem de avançar para a área de mata no
topo do morro com sua equipe de oito
agentes. Você começa a subir. A mata
entre o alemão e a Penha é densa,
fechada, com trilhas que só quem conhece
sabe onde levam. Você conhece algumas, o
CV conhece todas. Quando chega na
primeira posição elevada, a cidade lá
embaixo já está em guerra. Você vê
fumaça em pelo menos três pontos
diferentes. Houve helicóptero
sobrevoando, comunicação constante, tiro
vindo de direções que você não consegue
localizar com precisão. Você posiciona
sua equipe, fecha a saída norte da mata.
Espera. O plano é simples. A PM empurra
pelo baixo, o CV foge pela mata. Vocês
estão no topo esperando. Simples no
papel. Nível 4, a mata. 7:30 da manhã.
Primeira entrada de fugitivos pela mata.
Não, um, não, dois. Grupos de quatro,
cinco homens armados tentando romper o
perímetro pelo alto. Fuzis, pistolas,
pelo menos um com granada. Você e sua
equipe engajam. Confronto em terreno
fechado. Visibilidade de 10 m em alguns
pontos, menos em outros. O tiro que
passa na sua direita raspa na árvore a
meio metro de você. Você se joga, se
reposiciona, responde, o rádio não para.
Pedido de reforço aqui, médico ali,
posição comprometida no setor dois. Você
ouve o nome do seu companheiro de outra
equipe sendo chamado no rádio em tom que
você reconhece, tom emergência. Você não
tem tempo para perguntar o que
aconteceu. Sua equipe segura o perímetro
por 2:40 de confronto intermitente. A
mata está cheia de gente tentando sair.
Alguns conseguem romper por outros
pontos, a maioria não. Às 9:15 você
recebe informação pelo rádio que vai
ficar com você pelo resto do dia. Dois
sargentos do BOP foram baleados em
confronto na área de mata do alemão.
Cleiton Serafim Gonçalves, 42 anos. Éber
Carvalho da Fonseca, 39 anos, ambos do
seu batalhão. Cleiton, você conhecia
pelo nome e pelo rosto. Jogou futsal com
ele num torneio interno há três meses.
Eles não resistiram. Você recebe a
informação, respira fundo, não fala
nada. Sua equipe está te olhando. Você
faz o sinal de continuar e continua.
Nível cinco, o morro. 11:30 da manhã.
Você está no topo do morro há mais de 5
horas. A operação está em andamento em
toda a extensão dos dois complexos. O
rádio traz número crescente de
confrontos, de presos, de baixas. Você
não tem número total. Você não quer ter
número total agora, porque número te
tira o foco e você precisa do foco.
Drones sobrevoam sua posição, não os
seus, os do CV. Eles usam drones para
mapear onde estão as equipes policiais e
para lançar bombas artesanais. Você já
sabia disso no briefing? Saber e ver são
coisas diferentes. Você vê o drone antes
de ouvir, pequeno, civil, modificado,
passa a 30 m de altura. Você avisa a
equipe, todos cobrem. O engenho cai 15 m
à esquerda da sua posição. A explosão é
baixa, mais barulho que poder
destrutivo, mas é explosão. Seu ouvido
direito fica zunindo por 20 minutos. Ao
meio-dia, a operação começa a mudar de
fase. A PM convencional empurrou tudo
que conseguiu para cima. A mata está
cheia. Você está no centro de uma
operação que é maior do que qualquer
coisa que você já participou. Maior que
Vila [música] Cruzeiro em 2022, maior
que Jacarezinho em 2021. Você sente o
tamanho enquanto acontece. Às 13 horas,
você recebe ordem de avançar para dentro
da mata e fazer varredura. Você avança.
Nível seis. A varredura. O que você
encontra na mata, você não vai esquecer.
Você não vai esquecer não porque é a
primeira vez que vê morte. Você tem 8
anos de bope. Você já viu morte. Você
não vai esquecer porque a escala é
diferente, a quantidade é diferente. A
mata entre o alemão e a penha que você
tá varrendo tem corpo em cada clareira,
em cada trilha larga o suficiente para
correr. Você não conta enquanto caminha.
Você registra a posição, verifica se há
risco ativo, avança pro próximo ponto.
Isso é o protocolo. Você segue o
protocolo porque se parar para processar
o que tá vendo, não consegue continuar
andando. Às 15 horas, a varredura da sua
área está completa. Você sai da mata
pelo ponto norte, onde entrou pela
manhã, senta na beira de uma pedra, tira
o capacete e bebe água. Seu companheiro
de equipe mais novo, 24 anos, 2 anos de
corporação, senta do seu lado, não fala
nada por 5 minutos, depois pergunta: "É
sempre assim? Você pensa antes de
responder. Pensa em Cleiton, pensa na
mata, pensa nos 8 anos que te trouxeram
até aquela pedra naquele morro. Você
responde: "Não, porque não é. Aquele dia
é diferente de tudo que veio antes e
você sabe que vai ser diferente de tudo
que vem depois também. Nível 7, a
descida. 17:30
você desce o morro. A cidade lá embaixo
tá diferente. Fumaça em vários pontos,
ônibus atravessados em cruzamentos que
você vê dali de cima. Vias bloqueadas. O
caos que o CV acionou em retaliação
espalhado pela zona norte e além. Você
chega na base de apoio. Primeiro número
oficial que você ouve, 64 mortos
confirmados até aquele momento. Quatro
policiais entre eles. Dois do BOP,
Cleiton e Hebber. Você come alguma coisa
que não sabe dizer o que era. Sente o
gosto de pó e sal. Seu uniforme tá sujo
de terra vermelha da mata. Suas botas
estão pesadas.
Às 18 horas, você recebe ordem de
permanecer em prontidão na base.
Operação ainda ativa em pontos do
complexo. Você fica sentado no banco de
madeira da base de apoio, rádio no colo,
aguardando. Às 19 horas, o celular
pessoal vibra no bolso. Você tirou do
silencioso para ver se sua esposa
mandava mensagem. Ela mandou às 14
horas. Vi no jornal. Me liga quando
puder. Você digita: "Tô bem, mais tarde.
Não manda mais nada porque mais tarde
ainda não chegou. Nível 8, à noite.
22:40.
Você chega em casa. Sua esposa tá
acordada na sala com a televisão ligada
no jornal. Ela se levanta quando você
entra. Olha pro seu uniforme, pra sua
cara, paraas suas mãos, não pergunta
nada. Abre os braços. Você aceita o
abraço e fica parado ali por um tempo
que não sabe medir. Você toma banho. A
água que sai de você é escura de terra e
mata. Você fica debaixo do chuveiro mais
tempo do que o necessário. Deixa a água
quente esgotar.
Você senta na beirra da cama. Seu filho
de 4 anos está dormindo no quarto ao
lado. Você ouve a respiração dele pelo
monitor que sua esposa deixou ligado.
Amanhã os jornais vão chamar o dia de 28
de outubro de 2025 de muitas coisas.
Operação mais letal da história do
Brasil. Chacina, sucesso, fracasso. Cada
um vai chamar de uma coisa dependendo de
onde tá sentado. Você não sabe como
chamar ainda. Você tava dentro. Não,
fora. E quem tá dentro não tem o ângulo
de quem tá fora. Você tem o ângulo da
mata, do tiro, do rádio, da pedra onde
sentou às 15 horas, do companheiro de 24
anos que perguntou se era sempre assim.
O que você sabe? Cleiton Serafim
Gonçalves tinha 42 anos e jogava futsal
mal demais paraa posição de goleiro, mas
gargalhava quando levava gol como se
fosse a coisa mais engraçada do mundo.
Hebber Carvalho [música] da Fonseca
tinha 39 anos e uma filha de sete. Você
não sabe o nome da filha. Pensa que
deveria saber. O dia 29 de outubro vai
chegar em poucas horas. Vai ter mais.
Vai ter corpo sendo encontrado na mata
pela manhã. Vai ter número [música]
subindo, vai ter pergunta que não vai
ter resposta limpa. Você não sabe de
nada disso ainda. Você tá sentado na
beira da cama às 23 horas de uma
terça-feira [música] com o som da
respiração do seu filho no monitor e o
peso de um dia que não coube num dia.
Você deita, fecha os olhos, os unido no
ouvido direito ainda não passou. Você
dorme porque o corpo não aguentaria mais
ficar acordado. Não porque a cabeça
deixou.
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