Quando os humanos começaram a fumar cannabis?
No oeste da China, debaixo de quase 3 m
de terra, os arqueólogos abriram uma
cova de 2700 anos e encontraram um
homem, uns 45 anos, traços europeus,
nariz aquilino. Ele tinha sido enterrado
com uma arpa, um jogo de rédeas de
cavalo e quase 1 kg de maconha. Quase 1
kg. 789
g para ser exato. E o mais doido, a
planta ainda estava verde. Verde depois
de 27 séculos no chão. Não eram folhas
secas de cigarro velho, não. Era flor,
era buquê daquele tipo que quando os
cientistas analisaram ainda tinha
vestígio de THC ali dentro. O cara era
um chamã e aquela maconha não estava na
cova por acaso. Era presente de
despedida. Quem preparou o corpo fez
questão de garantir que ele não chegasse
do outro lado sem provisão. Mas presta
atenção numa coisa. Esse não foi o
primeiro humano a usar essa planta. Nem
de longe. Quando ele morreu, a
humanidade já tinha uma relação com a
cannabis que vinha de uns 10.000 anos
antes dele nascer. Então, deixa eu te
contar essa história desde o começo,
porque ela é muito mais antiga e muito
mais estranha do que você imagina. Volta
comigo uns 12.000 1 anos. Em algum lugar
do leste da Ásia, naquela região que
hoje é a China, os humanos estavam
aprendendo uma parada nova chamada
agricultura. E uma das primeiríssimas
plantas que eles olharam e pensaram:
"Essa aqui a gente vai cultivar foi
justamente a cannabis". E olha, faz todo
sentido. Imagina você sendo um
agricultor da idade da pedra e topando
com uma planta que dá para transformar
em corda, tecer em roupa, comer como
alimento, espremer para fazer óleo e
ainda usar como remédio. Isso não é uma
plantinha qualquer, isso é o canivete
suíço da natureza brotando do chão. Hoje
a gente sabe disso porque pesquisadores
sequenciaram mais de 100 genomas de
canabis do mundo inteiro e cravaram. A
planta foi domesticada no início do
Neolítico, no leste asiático, há cerca
de 12.000 anos. E sabe o detalhe que
muita gente confunde? Cânhamo e maconha
são a mesma espécie, a mesma planta. A
separação entre a versão fibra boa para
corda e tecido, e a versão viagem
carregada de THC só foi acontecer
milhares de anos depois, lá pelos 4.000
anos atrás, quando o ser humano começou
a selecionar planta por planta para
fortalecer um lado ou o outro. No começo
era tudo a mesma coisa, útil para tudo.
Um dos registros mais antigos da
cannabis aparece num texto chinês de
medicina, atribuído por lenda ao
imperador Shen Nong, aquele que dizem
que provava todas as ervas no próprio
corpo para ver no que dava. O livro
recomendava cannabis para praticamente
tudo, dor nas juntas, reumatismo, até
malária. E aí da China, a planta pegou
carona na rota da seda. Os mercadores
levavam seda, especiaria, tecido e
aparentemente um be também. Uma dessas
rotas passava bem no meio das montanhas
do Pamir, na Ásia Central. E é
exatamente ali que mora a prova mais
antiga de alguém fumando cannabis para
ficar doidão. Lá no alto dessas
montanhas, acima de 3.000 m de altitude,
tem um cemitério antigo chamado
Girzancal. Os pesquisadores escavaram
oito túmulos que datam de uns 500 anos
antes de Cristo. Dentro acharam 10
braseiros de madeira cheios de pedras
queimadas. E quando rasparam o resíduo
dessas pedras e jogaram no laboratório
bingo, canabinol, que é o que sobra
quando você queima THC, ou seja, aquela
galera não estava queimando cânquinho,
não. Era da forte, muito mais forte que
o mato selvagem que crescia na região. E
tem uma teoria boa para isso. Planta de
cannabis que cresce no alto da montanha,
sofrendo com frio, sol violento e
radiação ultravioleta, se defende
produzindo mais canabinoide, mais THC.
Então, é bem possível que aquele povo
tenha percebido isso e escolhido a
planta forte de propósito. Eles sabiam o
que estavam fazendo e agora imagina a
cena. Não tinha cigarro, não tinha
cachimbo, nada disso. O método era
esquentar as pedras até ficarem em
brasa, jogar a cannabis por cima e todo
mundo respirava a fumaça junto ali, ao
redor do morto. Tinha arpa tocando,
tinha indício de ritual pesado, talvez
até sacrifício. Os próprios cientistas
descreveram aquilo como uma cerimônia
com fogo, música e fumaça alucinógena.
Tudo para colocar as pessoas num estado
alterado de consciência e, quem sabe
conversar com os mortos. Eles estavam
fazendo uma sessão de funeral há 2.500
anos. Mais ou menos na mesma época, um
historiador grego chamado Heródoto
estava perambulando pela Ásia Central e
cruzou com um povo nômade chamado Sitas.
Os Sitas eram guerreiros de respeito.
Montavam a cavalo, atiravam de arco e
flecha e, pelo visto, eram fãs raiz de
uma boa fumaça. Heródoto viu eles
montarem umas tendinhas, jogarem
cannabis em cima de pedras em brasa lá
dentro e respirarem tudo que saía. E o
cara anotou. Escreveu que o vapor era
tão forte que nenhum banho de vapor
grego chegava perto e que os citas
gritavam de alegria com aquilo. Por
séculos, os historiadores acharam que
Heródoto estava viajando na maionese,
exagerando como bom contador de história
grego. Até que no fim dos anos 1940, um
arqueólogo soviético chamado Sergei
Rudenko escavou umas tumbas congeladas
na Sibéria, congeladas mesmo seladas no
permafrost por mais de 2000 anos. tão
bem preservadas que dava para ver
tatuagem na pele das múmeas. E o que ele
achou lá dentro? Estruturas de tenda,
pedras queimadas, vasos de bronze e
sementes de cannabis. Exatamente, peça
por peça, o kit que Heródoto tinha
descrito séculos antes. O grego não
estava inventando nada. O cara só tinha
visto a coisa acontecer ao vivo. Em
algumas tumbas, esses kits de fumar
apareciam tão gastos de uso que dava
para entender que aquilo não era só
ritual de morte, era hábito. Fazia parte
da vida. Anos depois, numa tumba cita lá
nas montanhas do Cáucaso, apareceram
vasos de ouro maciço. Quando testaram o
resíduo seco dentro daquelas taças
douradas, acharam duas coisas: canabis e
ópio. Guerreiros antigos, há uns 2400
anos, estavam misturando substância em
copo de ouro, combinação que faria
qualquer um repensar a vida. Mas o
achado mais cabuloso talvez seja em
Telarad, em Israel. Os arqueólogos
analisaram dois altares de um santuário
antigo do reino de Judá com uns 2700
anos de idade. Um altar tinha incenso,
ofereta padrão, nada demais, mas o outro
tinha cannabis. E não era cannabis solta
não. Eles misturaram a planta com
esterco animal para fazer ela queimar
bem devagar e soltar a fumaça no ritmo
certo. Quer dizer, quem montou aquilo
sabia exatamente o que estava fazendo.
Tinha técnica e o teor de THC ali era
suficiente para deixar quem respirasse
chapado. Foi a primeira vez que se achou
maconha num contexto religioso do antigo
reino de Judá. Não era recreação, era
para subir, para entrar em transe, para
chegar mais perto do divino. E aqui tem
um detalhe que muda a forma como você
enxerga essa história toda. Cada cultura
que cruzou com essa planta arrumou um
motivo para ficar com ela. E não é
coincidência, é porque o seu corpo já
estava preparado para ela antes mesmo de
você encostar o dedo. O seu cérebro
produz naturalmente uma molécula chamada
anandamida. O nome vem do sânscrito
Ananda, que significa felicidade,
bem-aventurança. É uma substância que o
seu corpo fabrica sozinho para te dar
uma sensação boa. E o THC da maconha,
por puro acaso da natureza, encaixa
quase no mesmo lugar que a anandamida
encaixa. É tipo uma chave reserva para
uma fechadura que o seu corpo já tinha
instalado. Por isso, a planta funciona
tão bem na gente. A gente não escolheu a
cannabis do nada. A biologia já tinha
deixado a porta aberta. E enquanto isso,
do outro lado do mundo, na Índia, eles
não só usavam a planta, eles adoravam. O
texto sagrado mais antigo deles, o
Atarvava, lista a cannabis como uma das
cinco plantas sagradas. Chiva, um dos
maiores deuses do hinduísmo, é chamado
de Senhor do Brang, que é uma bebida
feita de folha de cannabis batida com
leite. A lenda diz que Chiva, depois de
engolir um veneno que quase acabou com o
mundo, se acalmou justamente com o Bang.
E o mais bonito, até hoje, quase 3.000
anos depois, o povo ainda prepara a
mesma bebida nas festas de Holly e
Mahashi Varatri. Volta pra China agora
por volta do ano 200 depois deco Crist.
Tinha um médico chamado Ruatuo,
considerado um gênio. Conta-se que ele
misturava cannabis com vinho, dava pro
paciente e operava enquanto o cara não
sentia nada. Anestesia, 100 anos antes
da medicina moderna sequer sonhar com
isso, mas estar à frente do seu tempo
sempre foi perigoso. O atuo foi
convocado por Kau Cau, um dos senhores
da guerra mais poderosos da história
chinesa, que sofria de dor de cabeça
monstruosa. Só que Ruatu queria ir
embora, queria tratar o povão, não
passar a vida sendo médico particular de
Tirano. Caucau levou aquilo como ofensa,
mandou prender e executar o médico. Nos
últimos dias preso, o atu tentou passar
os escritos dele para um guarda. O
guarda ficou com medo e recusou. Aí Ratu
queimou tudo ele mesmo. A fórmula da
anestesia de cannabis morreu com ele.
Ninguém nunca mais decifrou. No Congo,
uma tribo conhecida por ser briguenta,
descobriu a cannabis e fez algo que
ninguém esperava. Parou de guerrear,
reorganizou a sociedade inteira em volta
da planta. Eles se renomearam de
Benahamba, os filhos do Cânhamo, e
transformaram o território deles num
lugar que batizaram de Lubuku, que quer
dizer amizade. Até o jeito de se
cumprimentar mudou. Viraram a palavra
moio. E moio significava duas coisas ao
mesmo tempo. Significava câno e
significava vida. Uma palavra só porque
para eles não tinha diferença entre as
duas. Agora dá um pulo pra Europa. Muito
antes de virar droga, a cannabis
sustentava a civilização inteira na
forma de cânhamo. Os navios funcionavam
com ela. Corda, vela, cordame, tudo de
fibra de cânhamo. A era das grandes
navegações foi literalmente segurada por
essa planta. Então, quando os colonos
chegaram na América, trazer semente de
cânclaração
política nenhuma. Era tão óbvio quanto
trazer trigo, tão essencial que nos
Estados Unidos a Assembleia da Virgínia
chegou a aprovar uma lei, tornando o
cultivo obrigatório. O fazendeiro era
legalmente forçado a plantar cânhamo,
não incentivado, forçado. Por dois
séculos, a cannabis foi só mais uma
parte normal da vida americana. Até que
em 1930, um sujeito chamado Harry
Slinger virou chefe do Departamento
Federal de Narcóticos dos Estados Unidos
e ficou no cargo por 32 anos. Anslinger
fez questão de amarrar a cannabis a
comunidades negras, mexicanas e
filipinas. Dizia que a planta fazia as
minorias esquecerem o lugar delas.
Implicava com jazz. Dizia que era música
satânica. Perseguiu o músico que tocava.
E olha o pulo do gato dele. Ele parou de
chamar a planta de cannabis, o nome que
todo mundo conhecia, e começou a chamar
de marihuana. Por quê? Porque a palavra
soava estrangeira, soava ameaçadora.
Assustar era o objetivo. Ele montou uma
pasta de relatórios policiais inventados
ligando à maconha, a violência e
loucura. Perguntou para dezenas de
médicos o que eles achavam. A maioria
disse que não era perigosa e ele ignorou
todos e ficou com o único que concordou
com ele. Em 1937, passou a lei que
praticamente liquidou a planta nos
Estados Unidos. Aí em 1970, o presidente
Nixon colocou a cannabis na lista das
substâncias mais perigosas que existem,
a mesma categoria da heroína. Uma planta
que a humanidade cultivava desde antes
de aprender a escrever, virou do dia
paraa noite, oficialmente uma das coisas
mais perigosas da Terra. E anos depois,
o próprio assessor de Nixon, John
Earlikman, soltou numa entrevista que
aquilo nunca tinha sido sobre saúde
pública. Segundo ele, o governo tinha
dois inimigos, o movimento antiguerra e
a comunidade negra. E como não dava para
prender alguém por ser contra a guerra
ou por ser negro, eles associaram a
maconha a um grupo e a heroína ao outro.
Criminalizaram os dois com tudo e
passaram a prender quem quisessem. É uma
fala contestada pela família dele, vale
dizer, mas ela bate com tudo que veio
depois. Para fechar, faz a conta comigo.
A cannabis acompanha o ser humano há uns
12.000 anos. Ela foi ilegal por cerca de
90. Isso é menos de 1% da história dela
com a gente. Por praticamente todo o
resto do tempo, essa planta simplesmente
esteve lá. Você fazia corda com ela de
manhã e queimava ela num funeral à
noite. E aquele chamã do começo, o do
oeste da China, com a arpa e o quase 1
kg de maconha verde do lado do corpo.
Ele não sabia de lista de drogas, de
lei, de política nenhuma. Ele só sabia
que aquela planta fazia alguma coisa que
valia a pena levar pro além. E as
pessoas que amavam ele fizeram questão
de que ele nunca nunca ficasse
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